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quinta-feira, 18 de junho de 2015

* O olho *

O olho do olho do olho 
Que ficou zarolho 
De tanto olhar pro outro olho... 
E pro outro olho...
Foi só por fim descobrir
que olhando a si
descobriria O olho dos olhos
e não os olhos de outros


12/06/2015

segunda-feira, 2 de março de 2015

* Gatuna *

Olinda Noite Ó linda... Felina... Passa como um vulto Cruzando o meu caminho Porque? Olinda Teus paralelepípedos forrando o piso brilhante a luz da lua Meus passos apressados Ó linda... Onde fostes? Sinto teu cheiro de fera no cio, correstes porque? Olinda... Um beco Medo A respiração trava Ladeiras Ruas estreitas Quatro cantos Um poste, duas luzes acesas no breu Teus olhos É tu! Ó Linda! Se aproxima devagar, como quem sabe o que quer Mas teus olhos parecem-me doces Eu noto E tu parece que sentes Passas ao meu lado,se esfrega em minha perna Tento tocar-te E num salto tu deixas apenas o rastro No ar Olinda Uma bebida Um desconhecido a cumprimentar Um banco Um suspiro Uma igreja de paredes desbotadas Uma prece Dez árvores, parecem mil Um som de flauta ao fundo anuncia Tu vens, eu penso Teu nome Luíza Eu lembro Silêncio... Mais nada... É o tempo, é o vento... É um beijo! 02/03/2015

* Ser *

Cá dentro de mim
Cá dentro deste fragmento temporal
Cá dentro desta memória,daquilo que me é íntimo 
Partícula, em meio a vastidão universal
Testemunho o tudo e o nada
Ainda que pareçam só palavras,desconfio
Sinto...
A dor
O amor
O Tudo, espelho da natureza mãe ,que vibra e emana fluidez
O Nada, abismo insondável em que me jogo, as vezes até a procura de garantias
Surjo então...
Abduzido por uma força centrípeta, e eu rodopio apenas, num liquidificador de emoções
É como num passeio veloz, onde se vê os rastros de luz
E os sons pipocam,visitando-me de todas as direções...
Uma sinfonia talvez,quem dera ser
Para mim é como se fosse , e nada mais parece importar
Apesar disso,uma busca parece se seguir
Voo, como uma pena levemente revolta em um vendaval
Vago as constelações, e entre elas ,lá estão as três Marias,tão simetricamente alinhadas.
Agora sinto que posso apalpa-las
sim...
E cá dentro meu ser parece explodir, como um turbilhão que vaza por cada um de meus poros
É um fluxo tão arrebatador que seria inútil arranjar referências
De dentro pra fora, ou de fora pra dentro... Também não me importa
Não há espaço nem tempo
Inexisto enquanto indivíduo
Uma quebra se manifesta,aterriso...
Gotas de vinho caem sobre minhas vestes
Desabotoou a camisa, jogo ao chão
Tomo o último gole daquela garrafa
Sinto a brisa refrescar meu peito,meu corpo
Mas por instantes esqueço-me novamente de mim
Transfiguro-me na brisa, no esgotamento
Não tenho nome
Não sou um ser
Acredito nisto:
Uma noite, a eternidade
01/03/2015

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

* "Feliz ano novo!" *

E os ponteiros desta minha jornada chegam mais uma vez ao ponto de partida, será mesmo talvez? Fito a roupagem travestida de branco, tudo me é tão familiar. Aqueles velhos hinos a paz, as mesas fartas ao meu redor, onde se come até estufar-se.
Dou uma volta, vou a rua fumar um cigarro. 
Em meio ao trajeto, vejo ali deitado na esquina, um velho maltrapilho roendo um pedaço de coxa de ave, suponho que seja peru.
Junto a ele há uma criança ansiosa, esperando a parte daquilo que lhe cabe.
Da rua eu volto, ali... Para onde ficam meus aposentos.
Fito desta vez, em meu caminho , a lua:
Pálida
Olho as estrelas, tento forçosamente imaginar constelações e desenhos que vou traçando...
Um a um...
Ao chegar em meus aposentos, cumprimento o porteiro, desejo-lhe: "feliz ano novo!"
Completo aquele velho trajeto até o elevador. Entro nele, olho-me sério no espelho.
E após virar as costas observo, bem a minha frente, aquela nova câmera de segurança que instalaram ali.
Abaixo dela tem uma "carinha" sorrindo, é amarela, parece até que tem icterícia...
Retribuo o sorriso. Deve ser a ironia presente nisto tudo.
As vezes penso:
Quem dera ser menos prolixo,quem dera ser mais sutil !

Enfim, ao chegar em frente ao meu apartamento, abro a porta, entro. Após isto,meu coração estranhamente começa a palpitar forte, me vem lembranças. Algo destaca-se dizendo-me ao pé do ouvido, talvez um pensamento, ou talvez aquilo que acabara de entrar pela janela escancarada,assobiando mansamente, o vento... E diz:
Tempo
Tempo
Tempo
Dê-me um poema que se traduza em alento.
04/01/2015

*Ressaca*

Tontura 
Enxaqueca
Os pingos frios de suor escorriam e trilhavam caminhos mirabolantes em sua face
Ao tardar o dia ,vomitara quase um balde inteiro...
E só depois que veio o alívio ,lembrou de uma frase que um velho maltrapilho cantarolava na noite anterior ,enquanto vagava pelas ruas, tomando goles e mais goles em sua garrafa de cachaça:
" A vida eu levo com alegria, dela só tomo uma dose por dia ."
Pertinente... Pensara ele... Até se pôr a vomitar em cima do resto que sobrara do balde
14/12/2014

domingo, 16 de novembro de 2014

* Silêncio *

Se pudesse ser tirada uma dúvida, uma única dúvida...
De fato, perguntaria sobre a gênese das coisas
O que veio primeiro:
O ovo ou a galinha?
O universo ou Deus?
A linguagem ou o homem?
A razão ou o amor?
Poderia passar uma eternidade equiparando cada coisa, cada causa, cada fenômeno.
Poderia perguntar-me até sobre a mangueira, se ela veio ou não antes daquele prédio. Se ali onde hoje existem tijolos,pessoas e livros antes não havia uma densa floresta.
Poderia tirar cada uma de minhas dúvidas, saciar esta sede inexata e desvelar , por fim, todos os mistérios...
Assim,talvez tornasse-me pleno...
Da mesma forma que é o vento, correndo os céus, assobiando ,em sua traquinagem mais íntima.
Seria da mesma forma que as plantas, vivendo da luz. Da seiva que corre, dos ramos que se enroscam... E cresce... Cresce... Cresce
Como aquela mangueira
Como aquela palavra que sai da boca e pergunta... Como o pensamento, que se forma antes disso tudo e entra em comunhão com todas as coisas... E a boca, que antes de expressar qualquer que seja a duvida, se fecha e se encerra no mais profundo e compreensivo silêncio.


15/11/2014

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

* Há *

Há algo dentro ...
Um espírito efervescente que por vezes bate a minha porta

És tu ? Criatura mitológica, habitante de todas as eras. Sopro estuporante que corre os breus das matas e por fim me atravessa o peito
Que queres? És um sinal?
Há algo dentro ...
Não sei dizer o que
Minha língua já não cabe
Minha boca permanece trancada
Meus olhos cerrados
Estou mudo
Mas ainda me sobra a insistência das horas, que também por serem apenas horas ,nada me dizem.
Há algo
Talvez seja o riso de um olhar
Talvez seja os gestos despropositados
Talvez seja o afeto que as coisas refletem em meu olhos
E,por fim,talvez seja delírio ...
O gosto daquele azul turquesa naquele pijama
O cheiro que irrompe do último gemido, a umidade
O som que a flauta tocava, eu vi, juro!
Deste jogo mirabolante e preciso nada mais hei de querer,nada!
Apenas este poema
E é isto que há
10/10/2014