Certo dia um homem decidiu levar seu único filho a um passeio no parque.
Dentro deste local podia-se desfrutar das formas mais diversas de entretenimento.
Lá,seu pequeno filho sentia como se estivesse num universo a parte de sua cidade e brincava feliz da vida,nada daquilo parecia que um dia fosse ter fim.
Estourava as coloridas bolhinhas de sabão que muitas outras crianças soltavam no ar.
Esperava na fila,junto a outros pequenos para subir as escadas e chegar ao topo do brinquedo. Lá de cima avistava seu pai que acenava com as mãos.Em seguida e rápido como um foguete ele descia o longo escorrego,mas ao fim da queda estava lá seu pai que lhe agarrava num forte abraço.
Brincava de pega,esconde-esconde,pulava cordas,gargalhava extasiado,e por fim respirava ofegantemente ,com as mãos apoiadas nos joelhos.
Mais na frente havia um pátio com pessoas sentadas,todas com as pernas cruzadas ,e organizadas formando um grande círculo com todos os presentes. Eles faziam uns gemidos estranhos enquanto permaneciam naquela mesma posição por um longo tempo. O menino não entendia nada, mas imaginava que tudo aquilo deveria ter haver com "auto-conhecimento",pois todos usavam camisas brancas com frases que diziam algo semelhante a isso.
O garotinho observava,ria sozinho e achava aquilo uma tremenda loucura.
Em seguida,o pai observando o filho pensativo com aquela situação, resolveu chama-lo para ver uma nova atração no parque. Uma parte daquele território havia sido reservado para abrigar todos os tipos de animais dispostos em recintos trancados.
O homem então pegou a mão do filho e o conduziu até o local onde estavam os animais.Mas o menino tão entusiasmado com aquilo, soltou repentinamente a mão do pai e foi correndo até a jaula do chimpanzé.
Não era nada de animador,ele pensava. Observar o macaquinho ir de um lado a outro da jaula diversas e diversas vezes. Havia também as horas em que ele comia,tomava água,fazia xixi,cocô e ainda por raros segundos olhava para o menino, incisivamente,como se pedisse algo. Incomodado com a situação, o jovem menino perguntou a seu pai:
-Porque não libertamos o macaquinho para que ele também possa brincar no parque como eu?Ele não parece estar feliz.
Após ter rido com a ousada dúvida de seu filho, o pai respondeu:
-Este chimpanzé não é um ser humano como eu e você,ele é um animal selvagem meu filho, provavelmente deve ter um comportamento violento. Não sabemos como ele pode reagir as pessoas, se o soltassemos aqui seria um caos. Neste cantinho ele tem tudo o que é necessário a ele, não há necessidade de soltá-lo.
Ainda sem entender direito como aquele macaquinho seria violento com outras pessoas ,o menino permaneceu andando com a cabeça voltada ao chão e acompanhou o pai que foi até a saída do parque.
No local,o menino viu um homem sério,enorme,fardado e que parecia estar duro como uma tábua. O garoto ainda observou outra coisa assustado, no bolso direito dele havia um revólver.
"Para quê aquela arma?"
Pensava ele.
O grandalhão ,depois ,num gesto automático, abriu o portão gradeado do parque que fez um rangido ensurdecedor. Os dois saíram e em seguida o homem grande disse a eles com uma voz fria:
-Tenham uma boa tarde.
O pai do garoto acenou e eles se despediram.
Mas uma dúvida ainda perdurava na mente do garoto.Ainda que o dia tivesse sido surpreendente,não tão mais satisfeito quanto antes,o menino perguntava a si mesmo:
"Porque os seres humanos são tão esquisitos?
Porque,hein?"
04/12/2013
"Lembre-se de Da Vinci. Artista, inventor, escultor, naturalista. Itália, século quinze. Redescobriu a perfeição do retângulo dourado...e o desenhou em suas obras primas. Conectando uma curva através dos retângulos dourados concêntricos, você obtém a mítica espiral dourada. Pitágoras amou esta forma, porque a encontrou na natureza: A concha de nautilus, chifres de carneiro, redemoinhos de água, tornados, nossas impressões digitais, nosso DNA e nossa Via Láctea, inclusive."
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terça-feira, 10 de dezembro de 2013
domingo, 17 de novembro de 2013
* Um inseto *
Há tempos,num cubículo ,trancafiado.Imerso em nuvens difusas ,faíscas cerebrais.
Esqueço-me...
Observo da sacada o quadro absurdo da modernidade.
Em marcha ,os corpos trafegam rumo ao eterno retorno,pacientemente, até que as laminas caiam sobre suas vidas.
Espremendo o que há dentro de meu crânio,indago:
-Eu,como fração disto,estaria também abandonado a circunstância monótona dos dias?
A solidão, indesejada companheira de existência, atiça ao pé de meus ouvidos:
-Não te abandonarias jamais!
Desesperado,nego a voz e professo intuitivamente:
-Nunca!
Abro de uma só vez a janela,utilizando-me de bruscos movimentos.
Inspiro profundamente o ar estranho a mim.
Deito em minha cama ,e enfim,retorna-me a tola estabilidade dos pensamentos organizados.
Inocentemente clamo por paz,dias melhores virão.
Aconchegado em meu recinto,penso estar livre do fado que a tanto me aflingia.
No entanto,repentinamente,surge um barulho quase inaudível,tirando-me o sossego. O zunido de um inseto asqueroso, um espécime estranho,voando vagarosamente em minha direção, pousa sobre a minha cabeça e num débil prazer, suga-me o sangue da testa.
15/11/2013
sábado, 12 de outubro de 2013
* O último voo *
Nomeiam-no enfermo,pois alem de cego ainda avistam-no pelos cantos balbuciando em monólogos.
Aquele andarilho no vão das multidões, despercebido passa, assim como todo frenetismo visceral a fora.
Apoiado num pedaço de pau ,extensão de seu corpo.
Parado ,apenas...
Sente...
Sorri e observa a tradução da imagem passada a limpo, o ritmo difuso metropolitano:
a sonoridade dos gestos, das buzinas insistentes, dos motores roncando,das sirenes da polícia,das ambulâncias,das furadeiras arrebentando o asfalto,um cachorro latindo, uma senhora gritando, outra também reclamando:
-Ainda mato este cão!
Mas que alvoroço...
Quem me dera ter pescoço.
Agonizo nestes dias!
Mas o cego não se engana, sorri,
sabe da sina.
Ele segue, depois, num passeio até o parque.
Entreter-se com os pombos, arremessa farelos, lambuza-se...
Percebe o som das aves, nota que andam em grupos e disputam as sobras jogadas até saciarem-se.
Só depois, num gozo gratificante,ele pode enfim escutar o bater das asas,a singularidade de cada voo.
Apenas uma ave não voa, sozinha, permanece a comer.
-Para onde voam?
Questiona o cego, inseguro por um momento ...
Calcula consigo mesmo...
Depois contorce-se e profere aos interlocutores inexistentes:
-Todos devem abandonar seus fardos, os cadernos de metas do ano de sucesso,
rasguem todos! Devem fechar também os olhos por um instante e escutar, não se acomodem ao absurdo,de quê adianta tão bons olhos se jaz o peito ainda mudo?
Ouçam!
Talvez seja só som toda a poesia que aqui reside ...
O último pombo alça voo e o mesmo som se repete num bater de asas.
O cego abaixa a cabeça...
Ele escuta mais distante o falar tímido e delicado de uma criança, que diz:
-Veja mamãe, que lindo o pequeno pombo voando para o céu!
O cego sente quase ver, desnuda-se a poesia.
Seu coração palpita, não consegue conter o pranto, lágrimas caem. Ele abaixa novamente a cabeça,emudecido, pronunciando consigo mesmo:
-Além do som há os céus!
11/1O/2O13
terça-feira, 24 de setembro de 2013
* A garota e o guarda-chuva *
Cabisbaixa, a miúda caminha.
Corpo encharcado de solidão,
seio que trava uma guerra injusta.
Cedendo em instintos ,
fragmenta-se sua sanidade .
Um pranto contido em seco...
A natureza anuncia a penitência,
e um estrondo lá longe indica o caminho ,
dilui as nuvens em disparos
dores insustentas,
uma porção delas.
As pernas fraquejam...
Mas um pensamento a impulsiona ,
profusão sentimental que flui.
Contorcendo-se de frio,
as mão firmes seguram algo.
Um passo...
dois...
três...
Inútil rapidez,
que será talvez?
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
* A vida em duas doses *
Garçon,chegue logo!
Deixe de lado a velha camaradagem
Traga-me uma dose de cicuta
Não me importa que a vida torne-se curta
Ou que ainda há algo a trilhar por sobre este chão
Ir de encontro a realidade é o mesmo que dar de cara com um muro
Veja bem, não tenho estado tão se-
guro
Mas sei o que há muito me aguardava atrás deste balcão
Depois,ainda sem cortesias,
traga-me uma dose de cachaça
Para que num gole só,ao fim de tudo, eu venha apenas a esquecer
Admitir que nisso há de se achar graça
E com um sorriso zombeteiro no rosto hei de morrer.
14/08/2013
* Averiguação *
Terno
Gravata
Barba feita
Mala preta
Olhar atento
Trabalho de minúcias
Pilha por pilha
Verdejantes
Sorriso sagaz
Tranquilidade
Rumo ao repouso
Suíte de primeiro andar
Degrau por degrau
Um fato de estranho
Algo da mala pinga
Gota por gota
Um tropeço
Pescoço quebrado
Piso com carpete
Não amorteceu .
Ainda hoje não se averiguou
Destacam-se dois porquês:
Foi o degrau, de sangue molhado ,
Ou a própria sombra que o comeu?
terça-feira, 9 de julho de 2013
* O falso poeta *
Ao poeta.
O criador de métricas
perdido no caos da rotina
Cria na rotina das palavras
o embrutecido
Rasga do olhar a cortina
Emerge o que se esta presente
no despercebido
Parindo na musicalidade dos versos
o ritmo dos andares perdidos
A rima sonora que insistem as
buzinas
Os trajetos obstruídos no trânsito
da vida percorrem na tinta de suas
palavras os mais inesperados caminhos
O marginal da rua duvida :
-Diante de tanta desgraça há de existir poesia
na vida?
O poeta responde em seus versos
Embora nem esteja tão certo
Talvez nem mesmo saiba o curso
Mas a dureza vista pertuba-lhe em encalço
e o faz proferir no impulso:
-O POETA É UM FALSO!
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