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quinta-feira, 5 de maio de 2022

* Alma *

   A Cratera fez-se lua 
E da associação constante, rubro lábaro
Flamejantes almas 
Que no cintilar da brisa, aninham-se

O princípio e a palavra primeva 

Irmãos de longa data

Com sinceridade diz o cristalino, as lágrimas
E a nossa saliva 
A tradução 

A mimesis por um único fio leva Imperiosa carne a procura de redenção ,de tempos remotos a trilha se extenderá, olhem bem os postes, faróis e pirilampos, recordem... 

05/05/2022

domingo, 1 de maio de 2022

* PEGUE UM DELÍRIO E CHAME DE SEU *

 Nos dias de meus sincericídios 

Retorço-me todo e me apanho destas minhas garras 

Os órgãos e o sangue fervente, borbulham, deixo a cuidado dos corvos 

Sigo na névoa 

Os passos me doem 

Na medida, a ausência da gravidade 

Se faz sentida

Vestido em meu uniforme 

Desço ao breu 

Dezenas de cães espreitam-me a ladrar 

Exibem seus dentes e a espuma que goteja de suas bocas 

Não me alcançam

Eu os possuo 

Tenho parte dos cães e das feras 

Nem mesmo que mostrem os dentes e se mantenham inertes

Lembro-me da cor da cor rubra de meu uniforme

E da cor dos olhos daquelas criaturas 

Ali mesmo então, estonteado 

Me pegada agora, de súbito 

A uniformidade se fizera presente, a se alardear em cor, em cheiro, ação, e toda a magnitude 

Era bestial! 


30/05/2022

domingo, 17 de abril de 2022

* ILHA *


Um passo 

E o outro lado da porta, pórticos, portais

Um passo em falso, o coração exposto, a mão extendida 

Amiga

Fizera-se porto e daí a pluralizar-se o mundo 

E o que se estava posto 

As mãos a se estenderem 

A abrirem rachaduras no fundo do crânio 

Aos recônditos da alma 


- Vês, não és ilha !

Olhas bem por este campo que pisas, é o mesmo que cultivas.

Disse a velha figura na frente de minha casa  

Seus pés retorceram-se em raízes, seu corpo se extendeu firme, o caule e a árvore toda espiaram-me  

Dia-após dia , a espera do tempo e estação vindoura. 


A partir dali, deixara de ser ilha, além de globo, repensaria ser uni,multi,meta, habitar as dimensões nas mais diversas instâncias, pois ainda que insignificante, esperançava a vida no mais puro delírio dos libertos versos. 


17/04/2022


terça-feira, 5 de abril de 2022

* O espelho *


Certa vez ao acordar de sonhos intranquilos , dei-me num palco, sozinho, incumbido a ser protagonista daquele evento. Confortavelmente entorpecido, rodeado de mantas, reparei que estava zonzo, como se tivesse rodado por piruetas a fora no mundo dos sonhos, como se no terreno do inefável houvera ali feito morada, enquanto gélida permanecera a minha carne, estéreis haviam sido os campos que se alastraram em minha jornada.

 Dividido na inerente angústia que me perfazia , ao ser carne, morada do espírito, para se fazer luz, frente as trevas. 


A luz do palco acendera fortemente, meio que turvando minha vista, percebi ali que um de meus sentidos eram inúteis. Recordando então matematicamente do cenário, desci do palco e fui até onde deveria haver a platéia. Estava bastante escuro, e ao notar que não havia ninguém, sem querer dei de encontro com um objeto, foi quando bati fortemente minha cabeça nele, ficando novamente zonzo,tentei tatear bem então sua superfície, estava levemente rachada, foi aí que em minha consciência dei por conta, era “um espelho”. 


De repente alguma luz do cenário orientou-se a acender aquele local.

Olhei-me então no reflexo daquele espelho,e como certamente eu me reconhecia, parecia ser quase igual a mim tal imagem,se não fosse pela rachadura, é claro! 


Fui andando pelo terreno voltado a platéia e percebi que junto ao movimento de minha consciência, havia também a companhia daquela luz, na medida então que eu dava nome as coisas ou vibrava em espírito. Após andar mais um pouco, percebi que ali havia mais um espelho,e poderia ser engraçado ou aterrorizante, mas aquelas figuras, mesmo sob a luz, me lembravam imagens distorcidas em um lago, ou em espelhos próprios de circo. Percebia-se uma infinidade de “eu’s”, figuras de inúmeros tamanhos e que poderiam ter densidades aparentemente diversas, e talvez até almas próprias, mas ao vislumbrar a luz e observar o caminho, notara então que havia ali um exército, me parecia inútil seguir! 

Era tedioso viver diante de si constantemente, uma overdose existencial. Este monólogo vertiginoso, a pensar sobre si, a escutar sempre a própria respiração, ainda que descompassada, sentir as batidas do próprio coração , sim, dele mesmo!Ininterruptamente! Carne!

E lá, no fundo daquele oco torácico onde fica toda sorte de órgãos, fazer zunir o sistemático e ruir, como trovão, um grito estridente na calada da noite, como rato, como porco, como pássaro, como face animal, que teme, mas lança no solo a semente de revolta, de todos os tempos, e com ela a liberdade!


Por fim, caí de joelhos no chão, e junto a isto, estilhaçaram-se todos os espelhos, milhares, num barulho ensurdecedor. Reparei então, que mais a frente, naquele salão reservado a platéia ,ainda ficara um espelho, e então decidi caminhar até sua direção, no entanto, durante o percurso feri meu pé com um dos cacos daqueles espelhos. Do meu pé, logo percebi que saia sangue, apesar de não ser caso grave. 

Ao chegar por fim ao último espelho e defrontar-me com ele, percebi que não havia nada, nem mesmo uma única figura que sugira, qualquer coisa sugestionada diante de todo aquele processo. Pude notar então que meu pé estava doendo um pouco, e ainda que o corte não fosse profundo ,ele não tinha de fato como estancar facilmente o ferimento, foi quando eu resolvi levanta-lo cortado mesmo, a meia altura ,e comprimi-lo contra o chão. 

Quando fizera isso e ainda sem tirar a visão do espelho, percebera que a imagem se movia, como as águas de um rio a reagir com o impacto. Diante disso, eu notei, finalmente ,que aquele não era um espelho comum, ele certamente tinha vida, e se quer talvez fosse um espelho. 

Foi aí então que a luz do salão teatral fora se alastrando, enquanto ,em fluxo ,“as águas” do espelho fluíam. Já não sabia bem o que fazer, mas talvez desejasse algo, pois todo homem, de dentro de sua alma espera algo. De uma grande barra de ouro, a um bom dia de pesca, cada alma no canto desse mundo espera, ou luta por algo. Estendi a mão, sem decerto entender aquele meu gesto intuitivo, então de repente minha mão adentrara o espelho, como num líquido, como água. Notava algo então na superfície de minha mão e quando pude retirar, estava ali: 

"Um lápis" !


Fechei então os olhos por um instante, queria parar no tempo, na eternidade, embora soubesse de minha finitude, e o quanto era falho em  todas as minhas instâncias, ainda assim, estava disposto a dar o melhor de mim e usar de meu espírito para ser guiado e guiar, atentando-me a possível jornada.


Como marca temporal daquele evento e desfecho, repentinamente terminara a espalhar-se por aquela sala grande e vazia uma nítida essência de lavanda. Eu não conhecia bem de essências, talvez, tinha um olfato prejudicado, mas ainda assim apreciava o odor que era capaz de impregnar os perfumes, e também esta mesma característica presente na poesia, das coisas, da vida. 


05/04/2022


domingo, 13 de março de 2022

* O CONTO DOS DOIS VELHOS *

Como num percurso sinuoso de silhuetas a se desenroscarem, pairando em plano onírico, são cuspidas duas criaturas. 

Duas criaturas levemente mórbidas, estranhas, alheias a si, e talvez ao mundo. Flácidas, caquéticas. Os ossos àmostra, o conjunto de pele pendurada, as unhas sujas, cabelos ensebados, além de faltar-lhes dentes pra degustar o que a vida lhes dá. 

Diz-se ainda que um deles é míope. 

 

Os dois se olham rápido, mas deixam para que se siga a sina, a marcha . Logo a frente então surge uma placa, em tom imperativo: SUBAM! 


Nada mais... 


Ali adiante está a penitência anunciada: 


Uma escada em formato de caracol de tamanho inestimável, intimidador. Se tomar pelo pecado de olha-la de baixo é ao mesmo tempo deixar-se levar pela vertigem, e a sedução do medo, a impossibilidade. 


Onde reside a força para aquelas criaturas?


De onde tirariam o combustível necessário para elevar-se , sem o temor de muitas vezes ter a consciência de que também se anda em círculos, de que no teatro da vida, elevamos-nos uma vez para cair logo em seguida, para cravar espinhos , pregos e dar “murros em ponta de faca”. 


-“ Por mim está bem, vou subir!”


Falara um daqueles, em tom esbaforido, como que cansado de narrativas verborrágicas.


Então, em corrente, o outro sobe, da o primeiro passo. 


Começa então uma odisséia, onde aqueles corpos se deixam levar pela sinuosidade, a vertigem, o cansaço, onde a própria força da gravidade passa a atingir efeito ilusório, onde o tempo é relativo. 


As criaturas pastosas, como em papa, o suor se deixando cair pelas dobras, e as articulações estalando, a respiração desfalecendo , porque àquela altura o ar já se consumira, as criaturas se consumiram. Os corações a fraquejarem , e a vista a turvar-se. Não se sabia ao certo mais quem era míope. Na falibilidade, na inerência orgânica de onde viemos e para onde vamos, somos todos irmãos. 


De repente aqueles seres sentem que os degraus sumiram, como que por ilusão de óptica. 


De frente paira uma espessa nuvem escura de onde não se sabe como se formou ou para onde vai. 


Mas como um retrato do que fora , face do sagrado e ainda assim enigma, surge um caramujo, vagarosamente a deslizar, no meio daqueles dois. Era o único elo de ligação que parecia se interpor ali, ainda assim um sinal da natureza. 


Observaram aquele ser aturdidos naquele mar de “nada”, e então seguiram mais uma vez corajosamente frente a névoa, como se o fôlego houvesse se restabelecido. 


Desbravaram o local em meio a escuridão, numa espécie de peregrinação ,como se houvesse talvez perdido  algo a se recuperar. Àquela altura do campeonato não poderia saber exatamente o que era, os bons homens hoje em dia carecem de tantas coisas, perdem-se no caminho, ou mesmo desprendem-se de seus princípios, de seus propósitos. A verdadeira tragédia é quando uma alma se deixa levar, por todos os males que ali no mundo dos homens também está, mas é por isso mesmo que se deve aprender a vigília e certa disciplina , porque nisto consiste a liberdade de saber discernir as verdadeiras escolhas no caminho da ascensão. 


-Estou vendo algo!(1) 


-Ora como você está vendo qualquer sorte de coisa em meio a esta névoa? (2)


- Coloque a mão no seu bolso.(1) 


Estavam ali os dois senhores olhando a frente, mas agora depois um deles notou que havia um volume em seu bolso, retirou então e quando olhou ali, havia uma concha de caramujo vazia. 


Os dois senhores fitaram aquilo, mas um deles esboçara um fino sorriso. 


De repente a névoa que pairava fora aos poucos se desmanchando e como numa sucessão de milagres, dezenas de crianças apareceram ali, bem adiante, a frente daqueles senhores. Elas não o notavam , estavam completamente entrertidas nos seus jogos de faz de contas, empinando pipas. Algumas pipas se chocavam, outras voavam alto, outras iam mais abaixo, mas ali ,elas bem sabiam a verdadeira sabedoria, a vida era aquele jogo bendito, aquele faz de contas, repleto de símbolos e quebra-cabeças, onde o imaginário é pura imensidão. 


Os velhos fecharam os olhos por um instante... 


Quando viram, finalmente, eram eles ali, materializados em primeira pessoa, desde o início.







segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Frases do filme "Cemitério do esplendor"(2015)

 - "O homem rico é como uma formiga, sendo sempre observado. " 


"O homem pobre é como uma montanha, sendo sempre ignorado." 


"Aquele que persegue o paraíso acabará no inferno." 


"O tempo perdido e sem uso é um tempo sem fim." 


"Quando ofendemos alguém queremos ser perdoados, mas quando alguém nos ofende nós esquecemos de perdoar." 





sábado, 12 de fevereiro de 2022

* AVE *

Pomba não era 

Branca, tão pouco


Repentina aparição, ainda assim  

Rachara-me o silêncio 

 

Seu pouso macio  

Em chão de concreto 

       

O cheiro do mangue 

Seu negrume, a matéria estampada 


       O andar da ave 


        “AVE”! 


        Pra perto ...


       “AVE” 


       Pra longe... 

     

 Fez da noite espetáculo, exibiu bem o bico, catou pequenos insetos no chão e depois levantara em revoada 


Um voo leve 


Como quem sabe do vento , a força que tem 

E da engenharia das penas, das asas.


13/02/2022